Por Franciane Bortoli
Psicóloga · CRP 06/205788
Publicado em 25/02/2023 · Atualizado em 15/07/2026
Os transtornos de aprendizagem não impactam apenas a capacidade de aprender de um indivíduo.
Por apresentarem certas dificuldades que, aparentemente, os outros não possuem, quem tem uma dessas condições tende a sofrer de problemas de autoestima e autoconfiança.
Afinal, por que só ele não consegue fazer coisas? Por que a escola ou faculdade é tão difícil?
Então, quando não encontram respostas para os seus problemas com os estudos, esses indivíduos começam a pensar que são ‘burros’, ‘preguiçosos’ ou ‘incapazes’.

Por isso, em alguns casos, familiares, professores e profissionais reforçam essas crenças negativas, afastando-os da busca por um diagnóstico.
Por essas e outras razões, psicólogos explicam que é preciso tratar as dificuldades de aprendizagem com seriedade e procurar ajuda profissional.
Esta, por sua vez, não auxilia somente na capacidade de aprender, como também nos problemas de autoestima.
Buscar esse diagnóstico é o que muda a história, seja de uma criança na alfabetização ou de um adulto que sempre se achou “preguiçoso”. Um psicólogo para avaliação neuropsicológica faz esse mapeamento na Chácara Santo Antônio e, quando necessário, trabalha em conjunto com psicopedagogo e psiquiatra, sem substituir nenhum deles.
O que são transtornos de aprendizagem?
O transtorno específico da aprendizagem é um termo guarda-chuva que engloba várias condições relacionadas a dificuldade de aprender. Então, os déficits na aprendizagem podem se manifestar nas capacidades de leitura, escrita e matemática.
O Manual Estatístico e Diagnóstico de Transtornos Mentais, o DSM V, define os déficits na aprendizagem como transtornos do neurodesenvolvimento.
Por isso, essas condições interferem no funcionamento do cérebro. No caso de condições relacionadas à aprendizagem, a principal interferência é na capacidade de captar e processar informações.
O transtorno específico da aprendizagem pode desencadear prejuízos duradouros em atividades que fazem uso das habilidades de ler, escrever e calcular, interferindo no desempenho acadêmico e profissional.
O diagnóstico dessas condições hoje costuma ser feito na infância em razão do avanço da compreensão das suas características.
Ou seja, é um cenário diferente do de alguns anos atrás, quando o acesso aos profissionais capazes de diagnosticar era mais limitado, assim como as informações sobre os déficits de aprendizagem.
Consequentemente, muitos adultos recebem diagnóstico tardio. Eles passam a compreender de onde vem a falta de conexão com os estudos ou as dificuldades no trabalho somente após passarem por muitos impasses.
Embora essa situação seja frustrante, é importante optar sempre por buscar um diagnóstico para que o tratamento adequado seja iniciado.
Quais são os transtornos de aprendizagem?
As condições que afetam a capacidade de aprender atuam em funções e áreas específicas, as quais, às vezes, interferem em todo o processo de aquisição de conhecimento.
Déficits na leitura e escrita, por exemplo, acarretam prejuízos em várias disciplinas, visto que são habilidades essenciais para a aprendizagem.
Para entender mais sobre os transtorno de aprendizagem, separamos os principais tipos abaixo.
Dislexia
A dislexia é um dos transtornos de aprendizagem mais conhecidos. Trata-se de um déficit na capacidade de leitura.
A pessoa com dislexia tem dificuldade para associar as letras com o som correspondente e organizá-las numa sequência lógica. Sendo assim, apresenta lentidão na leitura e na escrita.
A incapacidade de compreender as regras da linguagem é outra dificuldade comum desta condição.
O disléxico pode ler o texto com precisão, mas não compreender as relações entre as palavras e interpretar os sentidos profundos do que é lido.
Há outros dois tipos de dislexia: a fonológica, déficit na análise de sons e memória, e superficial, problemas no reconhecimento visual de formas e estruturas de palavras.
Disortografia
Caracterizada pela dificuldade de ortografar, a disortografia afeta, sobretudo, a escrita.
Os sintomas são semelhantes ao da dislexia, uma vez que a pessoa com essa condição tem dificuldade para elaborar um texto e escrever as palavras corretamente.
Consoantes, vogais e sílabas são omitidas ou adicionadas sem necessidade. Elas também podem ser substituídas por outras semelhantes, como é o caso da confusão entre ‘b’ e ‘p’.
Então, os erros de ortografia envolvem, ainda, acentuação incorreta, pontuação inadequada, desorganização de parágrafos e falta de clareza na expressão de ideias.
Discalculia
A discalculia envolve dificuldades tanto para solucionar problemas matemáticos quanto para identificar números e a relação entre eles.
A pessoa com essa condição não consegue compreender a magnitude da relação entre os números, então, conta nos dedos em vez de recorrer ao fato aritmético.
Não consegue aplicar conceitos para solucionar problemas quantitativos, apresenta lentidão para terminar operações e não se recorda de fatos e fórmulas matemáticas, desde simples até complexas.
Disgrafia
Semelhante à disortografia, a disgrafia é uma dificuldade específica na capacidade de escrever. Por isso, os déficits são identificados no uso da ortografia, caligrafia e construção de pensamento.
As dificuldades vêm da incapacidade de interpretar os sons da linguagem. Em outras palavras, a pessoa com disgrafia não consegue associar o som às palavras, letras e sílabas, por isso, pode trocá-las ao escrever.
A desorganização da escrita também é percebida no espaçamento irregular entre as palavras, sílabas ou letras, bem como em letras sobrepostas e caligrafia incompreensível.
Outros transtornos que afetam a aprendizagem
Embora não façam parte do grupo de transtornos específicos da aprendizagem, o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e o Transtorno do Espectro Autista (TEA) também interferem no processo de aprender.
O TDAH possui uma série de sintomas que dificulta a retenção de informação durante as aulas: ansiedade, problemas de concentração, percepção distinta da passagem do tempo, desorganização e dificuldade de memorização.
As crianças com TEA normalmente apresentam dificuldades em aprender a usar as palavras da maneira correta, postura rígida durante o dia a dia escolar (não querer fazer certas atividades ou interagir com colegas), problemas de concentração, irritabilidade e frustração diante de mudanças, entre outros.
Como identificar os transtornos de aprendizagem?
Os transtornos de aprendizagem costumam ser percebidos nos primeiros contatos com a vida escolar.
Quando a criança começa a ser alfabetizada, ela pode expressar demora na compreensão dos processos da linguagem.
Além de não conseguir ler ou escrever, a sua capacidade de associação (nome das cores, frutas, animais, etc) é reduzida. O mesmo problema pode acontecer com a introdução do cálculo no currículo escolar.
A dificuldade com as disciplinas escolares naturalmente leva a um desinteresse pelos estudos e frustração no momento de ir à escola, participar de atividades e realizar provas.
Não se trata de preguiça ou birra da criança, mas uma resposta natural a algo que ela não consegue compreender e causa sentimentos negativos.
Os problemas de aprendizagem vão além das situações pré-escolares. Ao longo da vida escolar e acadêmica, o indivíduo apresenta dificuldades de raciocínio, organização de informações, estruturação de ideias, compreensão de conceitos abstratos, entre outros déficits que atrapalham a conclusão de tarefas e atividades acadêmicas.
O indivíduo pode passar a acreditar que é burro ou “não leva jeito” para estudar, preferindo ocupar o seu tempo com outra coisa para não sofrer com o desgaste emocional e as reclamações de terceiros.
Problemas de comportamento, principalmente em crianças, são outros indicativos dos transtornos de aprendizagem.
Algumas crianças não conseguem compreender normas sociais, como esperar a vez para brincar ou desempenhar uma função para concluir um trabalho em equipe, o que resulta em problemas de socialização.
Já outras ficam irritadas com facilidade, são inquietas e não compreendem que as suas ações afetam os outros, agindo com descuido.
O que causa transtornos de aprendizagem?
De acordo com o DSM V, os seguintes fatores corroboraram para o desenvolvimento dos transtornos de aprendizagem:
- Genéticos: a reincidência de problemas de aprendizagem tende a ser notada nas famílias, principalmente quando afeta a leitura, matemática e ortografia. O risco de desenvolvimento de condições de aprendizagem é maior entre parentes de primeiro grau.
- Ambientais: algumas evidências indicam que a prematuridade e a exposição pré-natal à nicotina também podem contribuir para o desenvolvimento.
- Comportamentais: comportamentos de desatenção nos primeiros anos da vida escolar podem contribuir para dificuldades de leitura e matemática em anos posteriores.
Tem tratamento para os transtornos de aprendizagem?
Existe tratamento para os transtornos de aprendizagem!
O seu objetivo é reduzir os prejuízos provocados pelos sintomas dessas condições. O transtorno em si permanece por toda a vida, mas o seu desenvolvimento e intensidade se alteram.
São vários os fatores que contribuem para isso, como as exigências do meio, comorbidades e gravidade das dificuldades individuais.
O tratamento tende a ser multidisciplinar, envolvendo o psicólogo, psicopedagogo e psiquiatra conforme a necessidade do paciente.
O psicopedagogo é o psicólogo com especialização em psicopedagogia, área que une pedagogia e psicologia.
O foco do acompanhamento psicoterapêutico com esse profissional é a relação com a aprendizagem e estudos. Em outras palavras, ele ensina o paciente a aprender.
A organização pessoal é outro pilar do tratamento.
O paciente, independentemente da idade, aprende a montar um cronograma de estudos, organizar os materiais escolares ou acadêmicos, fazer bom uso do seu tempo para evitar atrasos e reduzir o estresse.

Autor: Psicóloga Franciane Bortoli - CRP 06/205788Formação: A psicóloga Franciane Bortoli é especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental, possui Formação em Terapia de Casal pelo Instituto Brasiliense de Análise de Comportamento e possui também Formação em Avaliação Psicológica...
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