Por Veluma Marzola
Psicóloga · CRP 06/124019
Publicado em 28/08/2020 · Atualizado em 15/07/2026
Nós, seres humanos, somos criaturas essencialmente sociais. Culturalmente vivemos em grupos e inconscientemente sentimos necessidade de acolhimento e pertencimento.
Segundo psicólogos, somos projetados para buscar relacionamentos significativos com outras pessoas, e um relacionamento conjugal é um dos tipos mais comuns de relacionamento e, também, um dos mais complexos.
Justamente por causa dessa complexidade, muitos casais têm buscado formas de deixarem a relação mais saudável, além de quererem se compreender e respeitar os espaços de cada um dentro da relação.
Relacionamentos podem terminar por vários motivos e isso não significa que “deu errado” ou que alguém “fracassou”. No entanto, alguns estudos têm mostrado alguns motivos mais frequentes para um término acontecer, e três dos motivos mais comumente citados para uma separação, são: falta de comunicação, incompatibilidade de ideias e falta de compromisso com o relacionamento.
A importância da comunicação entre o casal

Às vezes, os problemas conjugais são aparentes, mas outras vezes podem ser muito mais sutis e que nem o próprio casal se dá conta logo no início.
Relacionamentos definitivamente não são iguais, e o casal pode reagir de maneiras distintas de acordo com cada situação, por isso, é muito importante ressaltarmos que cada caso é um caso e os contextos também são os mais diversos.
Alguns casais são vocais e pode parecer que cada desentendimento se transforma em uma discussão aberta.
Outros casais evitam o conflito completamente e permitem que a raiva e o ressentimento cresçam dentro deles, sem nunca os reconhecer.
Quer você e seu cônjuge estejam brigando ou trocando um tratamento silencioso, se não estiverem se comunicando com eficácia, a saúde do relacionamento começa a ficar comprometida.
Em todo relacionamento surgirão desentendimentos, e brigar, em si, não é algo totalmente ruim.
O problema começa quando um ou ambos os parceiros não estão lutando de forma justa, com o objetivo de acertarem os pontos para o bem comum.
Observe alguns pontos que podem ser bastante prejudiciais numa discussão:
- Críticas: recorrer à crítica e ataques pessoais conduz a sentimentos de ressentimento e desprezo e é uma forma de evitar o problema real;
- Defensiva: se vocês estão mais preocupados em provar que o outro está errado do que ouvir ativamente os sentimentos e pontos de vista do outro, então vocês não estão agindo como casal. O casamento deve ser uma parceria, não uma competição ou luta pelo poder;
- Manipulação: seja na forma de ameaças, subornos ou projeção de culpa, qualquer tentativa de um dos parceiros para coagir o outro a fazer algo que eles não querem fazer é um sinal claro de problemas em um relacionamento. No momento em que você diz “sim”, os dois prometem amar um ao outro incondicionalmente, não apenas quando um faz o que o outro deseja;
- Esquivar-se: é quando o ouvinte desliga e não escuta o que o orador está realmente dizendo. Esquivar-se é uma maneira de escapar de lidar com o conflito de forma construtiva.
Mas também é muito importante pensarmos que a falta de comunicação não se restringe a apenas momentos de conflito. Casais em um relacionamento maduro sempre reservam um tempo para conversar um com o outro.
Isso significa fazer perguntas pessoais específicas sobre o dia do outro, sobre como o outro está se sentindo, dentro de uma escuta ativa e com uma vontade genuína em ouvir e compreender.
Quando o casal deixa o diálogo de lado, é um sinal bastante evidente de que o relacionamento está passando por uma desconexão.
No entanto, a conversa não deve ser responsabilidade de apenas uma pessoa; deve ser um esforço conjunto.
Quando um dos parceiros está sempre se esforçando e o outro não, isso pode gerar sentimentos de ressentimento e frustração e ser mais um sinal de que é preciso cuidar da saúde do relacionamento.
A sutileza da comunicação não verbal e seus significados na relação
Quando falamos em comunicação não verbal, estamos falando sobre demonstrações, atitudes e comportamentos que deixam claro para o outro que nos importamos, que aquela pessoa é necessária para a nossa vida e para a nossa felicidade.
São comportamentos sutis, mas muito significativos, como preparar um café da manhã, fazer planos incluindo o outro; respeitar o silêncio e a individualidade do outro, entre outros comportamentos que são necessários no dia-a-dia de uma relação. Lembre-se que tudo isso sempre dependerá da dinâmica do casal.
Existe, dentro de todos os aspectos de uma comunicação, a comunicação física.
Abraços, beijos, toques amorosos, contato visual e relações sexuais desempenham um papel essencial na construção de relacionamentos fortes.
O toque físico é uma forma simples de demonstrar afeto. A falta de contato físico pode fazer com que vocês se sintam distantes e percam a intimidade.
Os seres humanos precisam se sentir queridos e necessários e, se não o sentem, isso pode ter repercussões físicas, emocionais e psicológicas prejudiciais.
Queremos sentir que somos importantes para o outro e, por isso, a comunicação é vital para qualquer relacionamento, mas especialmente o romântico.
Compreendendo as incompatibilidades
Personalidades diferentes podem se complementar, mas quando se trata de questões da vida a dois que envolvem, principalmente, a tomada de decisões, é fundamental que o casal esteja em sintonia.
Um fator altamente influente no sucesso de um relacionamento é a gestão financeira, por exemplo.
Se um dos dois está tentando economizar dinheiro enquanto o outro parece gastá-lo tão rápido quanto ganha, pode ser uma causa grave de estresse e conflitos.
Outro problema comum são as diferentes ideias sobre a educação dos filhos.
A introdução de um filho na vida de um casal sempre será estressante, não importa o que aconteça; mas é altamente desgastante quando o casal não concorda sobre como criar os filhos.
Como casal, é necessário estabelecer expectativas claras para o relacionamento e para todos os aspectos que envolvem essa relação: dinheiro, filhos, moradia, viagens, afazeres domésticos, etc.
O casamento é uma parceria e requer contribuições substanciais de ambas as partes.
Se o casal não senta para discutir as expectativas um com o outro, o reflexo disso aparecerá imediatamente quando essas questões surgirem na vida do casal, e, acredite, o combinado não sai caro.
Comprometimento com o outro
O casamento não é algo estático. Exige manutenção constante e disposição para reagrupar e reconsiderar um problema se algo não estiver funcionando bem.
É necessário estar comprometido com a relação, e comprometimento vai muito além de estar com o outro; comprometimento é estar pronto para lutar junto quando as adversidades surgirem.
Quando está fisicamente presente, mas emocionalmente ausente, pode ser um sinal bastante perigoso de falta de compromisso.
A vida pode ficar agitada e é fácil se distrair com obrigações de trabalho, deveres como pais e o fluxo geral do dia, mas, embora seja sim bastante delicado e desgastante, estar atento a isso é estar atento à relação.
Relacionamentos não são fáceis e é preciso lembrar todos os dias – mesmo quando tudo vai bem – os motivos que fizeram o casal estar junto.
Regar essa essência é o combustível para que o casal esteja pronto quando as dificuldades colocarem em prova o bem-estar da relação.
A infidelidade é um dos exemplos mais comuns da falta de comprometimento.
Ironicamente, uma das razões mais citadas para a infidelidade não é a falta de amor pelo cônjuge, mas, sim, o fato de sentir-se só, mesmo estando dentro da relação; sentir-se desconfortável com a pessoa que mais deveria dar acolhimento e segurança emocional.
É claro que a infidelidade não é justificativa, afinal, além de muita gente sair emocionalmente machucada de uma situação como essa, é uma vulnerabilidade emocional que poderia ser conduzida entre o casal sem a necessidade de chegar às vias de fato.
Quando há falta de compromisso com a relação, chega um momento que o próprio casal não compreende mais o que está fazendo junto, porque as coisas começam a perder o sentido, e, infelizmente, retomar a saúde da relação depois que o desgaste acontece, é praticamente impossível.
Lembre-se que não há vergonha em procurar ajuda profissional quando o casal não sabe muito bem o que fazer para fortalecer a relação.
Concordar em ir à terapia de casal é admirável e mostra que ambos têm um forte desejo de melhorar o relacionamento.
Outros sinais que também devem ser analisados
Além dos três pilares mencionados acima, pode haver outros sinais a serem percebidos no relacionamento que podem ser prejudiciais, como abuso de substâncias, violência doméstica e fatores de saúde.
Para esses casos, é realmente importante contatar um profissional que possa contribuir com o casal, de maneira que priorize a individualidade de cada um.
São situações absolutamente delicadas e que exigem um aprofundamento muito maior, e, por isso, a ajuda de um psicólogo é recomendada.
Abuso de substâncias
Quando uma pessoa dentro da relação, ou ambas, abusam de substâncias químicas, todo mundo, inclusive quem está em volta, se prejudica.
O abuso de substâncias acarreta pensamentos autodestrutivos para quem faz o uso, e também para o outro, que entra nesse ciclo de comportamentos sem perceber.
Os sinais mais comuns do abuso de substâncias, são:
- Mudanças no apetite ou padrões de sono;
- Perda ou ganho repentino de peso.
- Negligenciar responsabilidades no trabalho ou em casa;
- Mudanças de comportamento e mudanças repentinas de humor.
Embora a lista mencionada não seja, de forma alguma, um padrão único de comportamento da pessoa viciada, ela nos dá uma base do que pode ser percebido e que precisa de ajuda imediata.
Violência doméstica
Tanto o abuso físico quanto o emocional são considerados formas de violência doméstica.
Qualquer ação que magoe e tire a dignidade pessoal de um indivíduo é uma forma de abuso e isso não pode ser permitido. Alguns exemplos de violência:
- Dano físico, como puxar o cabelo, bater, chutar, socar ou sufocar;
- Controlar o que uma pessoa bebe ou com quem ela tem contato;
- Dirigir de forma imprudente quando a outra pessoa está no carro, gerando medo;
- Ameaças verbais;
- Insultar, xingar ou humilhar outra pessoa;
- Coerção sexual.
Não importa o quanto vocês estejam chateados ou zangados um com o outro, a base para a convivência social é o respeito mútuo, sejam em quaisquer relações.
Problemas de saúde
Problemas de saúde podem acarretar estresse, tanto em quem sente quanto em quem convive com a pessoa doente.
O estresse é inevitável em qualquer relacionamento, mas a maneira como a pessoa reage a ele pode contribuir para que o relacionamento sobreviva à tensão.
Um relacionamento bem-sucedido exige que ambos confiem e apoiem um ao outro, na saúde ou na doença.
Aliás, são nos momentos mais difíceis que sabemos o quanto podemos contar com o outro.
O amor não tem nada a ver com os contos de fada, as dificuldades existem, e amar é ter a consciência da imprevisibilidade da vida.
Se você está tendo problemas para lidar com um problema de saúde, o primeiro passo é reconhecê-lo.
Às vezes, o reconhecimento significa conversar com seu cônjuge sobre sua experiência de conviver com essa condição, compartilhar ansiedades que você possa ter sobre sua saúde e vivenciar essa fase junto.
Embora seja um contexto bastante difícil, lições podem ser aprendidas em casos de doença e o casal pode se conhecer muito mais e entender muito mais profundamente a importância um do outro, quando situações assim acontecem.
Diante de uma situação de saúde estressante, o autocuidado de cada parceiro é parte integrante do bem-estar de seu relacionamento como um todo.
Se não for bem planejado (focar nos cuidados pessoais, manter a rotina o mais próximo da normalidade), pode ter um efeito muito negativo para ambos.
Perda de autonomia pessoal
Acompanhando a ideia de autocuidado está a ideia de autonomia pessoal. Se você sente que está perdendo sua própria identidade no relacionamento, é provável que você não tenha um relacionamento saudável.
A própria definição de relacionamento é a maneira pela qual duas ou mais pessoas estão conectadas.
Isso significa que, se você deseja um relacionamento bem-sucedido, precisa encontrar um equilíbrio entre ter uma identidade pessoal e uma identidade como unidade com seu cônjuge.
Se você não se sente à vontade em passar um tempo sozinho, é um desafio nutrir o crescimento e o desenvolvimento pessoal.
O crescimento pessoal ajuda a sustentar a autoestima de uma pessoa, e uma autoestima saudável é a chave para um casamento saudável.
É importante reconhecer que você e seu cônjuge são pessoas diferentes e que um não deve definir o outro totalmente. Embora muita distância seja prejudicial para um casamento saudável, passar muito tempo juntos também é.
Fazer tudo junto pode causar ressentimento e sufocamento. Isso pode fazer seu cônjuge sentir que você não confia nele o suficiente para deixá-lo fazer qualquer coisa sozinho.
A consequência disso é a perda da identidade de ambos, uma vez que o casal esquece o que está ao redor e vive como se tudo fosse resumido somente à relação.
Estamos em constante mudança, em constante evolução, e pode ser uma coisa linda, apesar dos desafios inevitáveis que surgirão.
Uma relação bem-sucedida exige respeito mútuo, bem como comunicação aberta, amorosa e honesta.
O casamento é um exercício de confiança, é preciso paciência, compreensão e amor. O que define um relacionamento bem-sucedido é a capacidade e a disposição de superar as dificuldades e buscarem o amadurecimento emocional juntos.
Os conflitos conjugais são uma oportunidade de crescimento e uma forma de fortalecer o relacionamento. Por isso é importante que ambos estejam na mesma página no relacionamento.
Reserve um tempo para trabalhar em seu relacionamento e analisá-lo profundamente. Manter a intimidade emocional e física deve ser prioridade tanto quanto comer e dormir.
Se você tem percebido os sinais mencionados acima em seu relacionamento, ou mesmo se você tem apenas o objetivo de melhorar a sua relação ou aprender mais sobre como enfrentar a vida a dois, busque informação: o conhecimento nos liberta e o autoconhecimento nos amadurece.
Relacionamentos são uma via de mão dupla, e é preciso esforço de ambos para que tudo flua saudavelmente.
No entanto, em alguns casos, o fim é inevitável e está tudo bem também.
Embora separações sejam difíceis, também são formas de amadurecimento importantes para o desenvolvimento pessoal.
Aprender mais sobre nós e sobre o outro nos dá acesso a ferramentas emocionais importantes para lidar com as mais variadas situações.
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Autor: Psicóloga Veluma Marzola - CRP 06/124019Formação: A psicóloga Veluma é formada há mais de 10 anos e é especialista em Terapia Cognitivo Comportamental. Possui experiência em escuta e acolhimento em Terapia Individual e Terapia de Casal. Atende demandas como ansiedade generalizada, conflitos profissionais, amorosos e familiares, disfunção sexual...
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